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A magnífica gravura de Hans Steiner

(Graz, Áustria, 1910 – Gorizia, Itália, 1974)


“Sempre disse que você nasceu para ser gráfico. Continue trabalhando e não se deixe influenciar pelas teorias alheias. Precisa somente trabalhar e, um dia, há de se falar de você.” (OSWALD, 1959 p. 250)




Devido à falta de informação a respeito de Hans Steiner (1910 – 1974), esparsa em instituições culturais e entre colecionadores e profissionais especializados, o artista foi sendo descoberto “aos poucos”, paulatinamente. A dispersão de documentos e trabalhos de sua autoria obriga-nos a, literalmente, “costurar” sua vida e obra e, por tal razão, ainda não há estudos aprofundados e sistematizados sobre suas gravuras nucleares e nem sobre a totalidade de suas obras, não se conhecendo também a principal razão de sua fascinação pelas populações indígenas, assim como pela flora e fauna brasileiras.


Hans Steiner passou a infância nas cidades italianas de Trieste e Gorizia, próximas à Áustria. Na década de 1930, transferiu residência para o Brasil, e cerca de sete anos depois estava matriculado no Curso de Ensino Artístico do Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro, época em que teve aulas de desenho com Eurico Alves e com Carlos Oswald (1882-1971), de quem foi aluno dileto, chegando a expor com o artista em 1940, em uma mostra conjunta realizada na Galeria do Instituto Brasil - Estados Unidos (IBEU), em Copacabana.


Admirador da obra de Oswaldo Goeldi (1895-1961), Steiner - mestre da gravura, aquarela e pintura – compôs obras de incontestável valor que hoje se encontram em coleções particulares e em museus e instituições públicas brasileiras, como o Museu Nacional de Belas Artes e a Biblioteca Nacional, instituições que, reunidas, possuem as maiores coleções do autor, totalizando mais de duas centenas de obras entre gravuras, desenhos e pinturas.


Desenhista, gravador, pintor e professor - produziu mais de três centenas de gravuras -, primou pelo detalhe: não se limitava a expressar a imagem apenas, mas trazia, por meio dela, uma gama de informações que a contextualizavam naquele tempo e espaço. Suas obras eram verdadeiras enciclopédias de informação e conhecimento. Suas águas-fortes - uma simples folha – eram tão bem sulcadas como a árvore a que pertenciam, característica marcante que identifica claramente todo o conjunto de suas obras.


O importante pintor Iberê Camargo (1914-1994) foi apresentado pelo mineiro Frank Schaeffer (1917-2008) ao gravador Hans Steiner em 1943 e, mais tarde, Camargo receberia as primeiras aulas de gravura em metal com Steiner, parceria que propiciou a composição de várias gravuras em conjunto. Dessa fusão, e assinadas por ambos, nasceram gravuras curiosas, por vezes de acentuado cunho surreal, e que explicitaram a versatilidade plástica marcante de cada um dos autores. Este acervo pertence hoje ao Museu Iberê Camargo, recém-inaugurado em Porto Alegre (RS).


As populações indígenas também não passaram incólumes ao olhar atento do gravador: em 1956 realizou uma série de trabalhos com o apoio do antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997), então diretor do Museu do Índio, no Rio de Janeiro. Comprovando real interesse do artista sobre a cultura indígena, Hans Steiner reuniu cerca de 100 trabalhos utilizando técnicas diversificadas: desenhos, aquarelas, óleos e pastéis juntaram-se às gravuras em metal, madeira e pedra. Todo o fruto dessa expedição, na época, denominou-se “Viagem ao Araguaia”, apresentado numa exposição na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, em 1959. Ainda durante a década de 1950, Hans Steiner esteve presente algumas vezes em sua terra natal, mais precisamente nos anos de 1950 e 1952, e depois, nos anos de 1964, 1966, 1967 e 1969, quando apresentou à Europa um conjunto de seus trabalhos. O Museu Albertina, de Viena, possui três de suas gravuras: Luz cortada, em metal, e duas xilogravuras, Xavante desconfiado e Xavante; a Academia de Belas Artes de Viena conta com setenta e quatro trabalhos de Steiner, e o Museu Etnológico, instituição fundada em 1806, possui trinta e quatro trabalhos do artista relativos ao período entre 1944 e 1966. Este Museu compôs um catálogo datado de 1965, fruto de uma grande mostra que reuniu aquarelas, pastéis, monotipias e gravuras provenientes da “Viagem ao Araguaia”, de Steiner: cento e doze peças que tinham, como foco principal, as populações indígenas do Brasil. Tal mostra comprovou o sério interesse de instituições estrangeiras consideradas de referência internacional pela obra do artista e sua relevância.


Ainda em 1960, no Brasil, e subvencionado pelo Museu do Índio, Steiner partiu para o Alto Xingu como responsável pela documentação artística do local, em companhia de sua companheira e de antropólogos também de grande renome, como Cláudio Villas-Boas (1916–1998). Tal viagem, considerada uma continuação daquela expedição ao Araguaia, resultou em cerca de setenta trabalhos em aquarelas, bicos de pena, xilogravuras, calcogravuras e desenhos em crayon, cujo produto foi apresentado numa exposição havida entre abril e maio de 1961, na Biblioteca Nacional.


Em se tratando da arte de gravar, Hans Steiner possuía uma particularidade incomum aos artistas gravadores de sua época: datava as suas obras, assinava-as, intitulava suas estampas e, em muitas, escrevia no verso da obra, próximo ao testemunho, toda e qualquer informação sobre o que executava, inclusive informando o tipo e o número da matriz em metal utilizada quando da impressão. Em um número muito grande de suas obras verificou-se sua assinatura nas chapas, bem próxima ao canto inferior direito ou esquerdo do trabalho, em alguns casos confundindo-se com o próprio desenho: vêem-se, de forma discreta, as siglas HST ou HSTEINER. Atitudes como esta criam um elo raro entre o artista e seu público, bem como uma atmosfera rica no processo de descoberta do fazer artístico.


São controversas as afirmações de que remonta a cerca de 500, ou mesmo de 800, o número de matrizes produzidas pelo artista, haja vista que não foram encontradas numerações acima do número 378 na análise de suas gravações. De fato, sua obra aponta cerca de 400 matrizes claramente perceptíveis, constituídas de paisagens, marinhas, cenas de gênero, ex-libris, fauna e flora brasileiras, documentadas de forma magnífica através de suas gravuras, aquarelas e desenhos, que mostram o apuro técnico e domínio da forma, inerentes ao seu trabalho.


Percorreu e registrou cenas das matas do Araguaia, Xingu e da Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro. Como estrangeiro, deslumbrou-se com a vivacidade e a exuberância das matas brasileiras, emoção que o levou a percorrer esses locais para registrar e documentar a pluralidade e o exotismo do que via. Esteve também em Minas Gerais, Bahia, Rio Grande do Sul, Goiás velho e na Ilha do Bananal (em Tocantins), à procura das populações indígenas, da peculiaridade das cidades e da fauna sul-americana, fontes de inesgotável inspiração.


A obra de Hans Steiner deve ser compreendida como participante ativa da história da gravura brasileira. Seu valor vai além da gravura meramente documental, pois se estende à paisagem, ao registro das populações indígenas e à denúncia da morte e da miséria das populações alocadas nas grandes cidades. Sua obra é fundamentalmente um exemplo do domínio da técnica, da força do traço, e da sensibilidade do olhar. Engrossa o caldo farto de gravadores nativos ou que aqui estiveram, considerados de relevante importância para a história do Brasil, e contribui de forma expressiva e peculiar à reflexão da gravura artística no país, fundada em princípios do século XX.


O Steiner-Rio, nome pelo qual também era conhecido no Brasil, faleceu em julho de 1974, aos 64 anos de idade, na cidade de Gorizia, Itália.


Paulo Leonel Gomes Vergolino